Estação

Em meio a estação de trem ao meio-dia de um dia qualquer, eu apenas fazia parte do cenário que por alguns segundos, jamais iria se repetir. Meu corpo congelado por aquele breve momento eterno junto à um sorriso que se disfarçava perante a confusão de palavras que percorria minha mente. Paro, penso, sinto e não encontro respostas. Me desconstruo. Me reconstruo em seguida. Os pés põem a se caminhar inspirados pelo silêncio que o vazio fazia brotar. Aos olhos do mundo ele era só mais um. Aos olhos dela, ele gostaria de ser o seu mundo. Mas ela nem o viu passar.

Fogão a lenha

Por muitas vezes me encontro sentado sobre o fogão a lenha. A escuridão na qual  me encontro é confortante e por alguns segundos encontro um pouco de paz. É onde o passado, o futuro e o presente se transformam em um só momento. Na incerteza de qual momento presencio, a anulação de pensamentos me faz tranquilo, sereno. O cotidiano ja nao faz parte de mim e meus olhos vão para além do Reino dos Sonhos se perdendo nas infinitas montanhas do oceano ciano. São 4:03 e não consigo dormir. O brilho da Lua me faz companhia e vejo o quanto comum somos nós. Um sonho inatingível, impossível, imaginável, quanto mais bela se torna, mais longe se distância de mim. Mas o brilho das estrelas está se apagando, assim como o brilho do seu olhar se apagou quando você fechou seus olhos para mim. As cores ao redor vão se tornando um black and white intenso,  mas até as tonalidades de cinza tem sua beleza. O silêncio faz parte do cenário, e toma conta do vazio por completo. São 4:03 e não consigo dormir, agitado e revolto como o mar.

Entrevista com André Dahmer

Entrevista fantástica com o criador dos Malvados.

O cartunista autor da série Malvados fala com exclusividade sobre a infância inquieta, a importância da aula de pintura, a decepção com a faculdade, os primeiros passos com quadrinhos na internet e o interesse pelos tímidos.

Simplesmente inspirador.

4’33”

Sou um personagem: não tenho braços: mãos: dedos: unhas nas pontas. Ainda não estou aqui. Essa voz que fala é um recurso estético que funciona bem; mas não enche barriga. Às vezes, enche é o saco. Bom: essa coisa de existir é uma coisa complicada. Você já leu o Pequeno Príncipe? Lembra daquele planeta que era habitado por um rei? Quer dizer, como se pode ser rei sozinho? Eu sou aquele rei; só que sem planeta e sem visita de principezinho. Eu não existo, entende? O que existe são essas frases, esse texto, as regras da gramática e tudo mais. Se por vadiagem, delírio ou petulância, um filólogo-arqueólogo-legista debruçar-se sobre minhas entranhas, não me pega. Eu sou escondido: mas não tenho esconderijo. Fico aqui sentado na ante-sala à espera; vejo coisas inexistentes pegar senha e sair pra lugar que eu nem sei. Outro dia, aconteceu uma coisa esquisita demais e, se digo que é esquisita, é esquisita mesmo. Um não-ser como eu, descabelado, mordeu o anzol e foi-se daqui pra aí. Um velho mudo tentou dizer uma coisa; ficou tudo pelo avesso. Deve ser porque há muito tempo aguarda o gritar da senha: mas o coitado é surdo. Todos têm uma senha que não é de papel: desnumerada. Você tem que passar pra cá e dar uma espiadinha no funcionamento do negócio. É totalmente sem burocracia: as senhas não seguem ordem alguma. E tudo dá certo. Mas eu não fico triste, não. Eu só fico. Tecnicamente falando nem ficar eu fico.

Ilustração criada para o conto 4’33”, de Marcos Vinicius Almeida, Suplemento Literário Edição 1.330