4’33”

Sou um personagem: não tenho braços: mãos: dedos: unhas nas pontas. Ainda não estou aqui. Essa voz que fala é um recurso estético que funciona bem; mas não enche barriga. Às vezes, enche é o saco. Bom: essa coisa de existir é uma coisa complicada. Você já leu o Pequeno Príncipe? Lembra daquele planeta que era habitado por um rei? Quer dizer, como se pode ser rei sozinho? Eu sou aquele rei; só que sem planeta e sem visita de principezinho. Eu não existo, entende? O que existe são essas frases, esse texto, as regras da gramática e tudo mais. Se por vadiagem, delírio ou petulância, um filólogo-arqueólogo-legista debruçar-se sobre minhas entranhas, não me pega. Eu sou escondido: mas não tenho esconderijo. Fico aqui sentado na ante-sala à espera; vejo coisas inexistentes pegar senha e sair pra lugar que eu nem sei. Outro dia, aconteceu uma coisa esquisita demais e, se digo que é esquisita, é esquisita mesmo. Um não-ser como eu, descabelado, mordeu o anzol e foi-se daqui pra aí. Um velho mudo tentou dizer uma coisa; ficou tudo pelo avesso. Deve ser porque há muito tempo aguarda o gritar da senha: mas o coitado é surdo. Todos têm uma senha que não é de papel: desnumerada. Você tem que passar pra cá e dar uma espiadinha no funcionamento do negócio. É totalmente sem burocracia: as senhas não seguem ordem alguma. E tudo dá certo. Mas eu não fico triste, não. Eu só fico. Tecnicamente falando nem ficar eu fico.

Ilustração criada para o conto 4’33”, de Marcos Vinicius Almeida, Suplemento Literário Edição 1.330

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